Está em estudo um mecanismo para permitir mudanças no cálculo do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) quando a taxa se distanciar demais da Selic e provocar distorções no mercado. Segundo fontes ouvidas pelo Valor, essa fórmula teria sido desenvolvida pela própria Cetip – responsável pelo registro das operações de troca de dinheiro no interbancário e pelo cálculo da taxa média utilizada como referência – a pedido do Banco Central, que vê com desconforto o aumento da diferença entre as duas taxas.
Procurada para falar sobre essa iniciativa, a Cetip afirmou apenas que “usa as informações individuais dessas operações para calcular a taxa” e “avalia periodicamente a possibilidade de aperfeiçoamento da metodologia, considerando as condições vigentes no mercado.” Já o Banco Central não se manifestou sobre o assunto.
Segundo fontes que acompanham o debate em torno da questão, a aplicação dessa fórmula respeitaria critérios estabelecidos previamente. Ou seja, só seria aplicada em momentos em que o volume de negócios ou as condições de liquidez escapassem de determinados padrões. Seria algo semelhante ao que faz a BM&F no mercado de DI futuro: quando o volume de negócios de um contrato fica abaixo de determinado limite em um pregão, a bolsa tem parâmetros para arbitrar a taxa de ajuste que será usada como referência pelo mercado.
Segundo relato de profissionais de tesouraria, o diferencial entre a taxa CDI e a Selic é frequentemente alvo de atenção do Banco Central. “Quando começa a haver um descolamento maior do que a média histórica, que é algo entre cinco e dez pontos base, o Banco Central entra em contato com as mesas para saber o que está havendo”, relata uma fonte. Não há como a autoridade monetária intervir nesse mercado diretamente influenciando a taxa, uma vez que trata-se de um ambiente de negociação livre entre os bancos, que assumem o risco da contraparte ao emprestarem ou tomarem o recurso em questão. Mas, dizem esses especialistas, o BC pode exercer pressão para conter excessos – e já fez isso em muitas situações.
Desta vez, em que o diferencial entre as duas taxas atingiu níveis históricos e se mantém assim por quase dois meses, o BC estaria menos “atuante”, talvez por reconhecer que há um volume de liquidez que justifique o descolamento. Houve ligações da autoridade monetária para as tesourarias para falar sobre o assunto mas, segundo relatos, sem uma sinalização explícita para que a queda do CDI fosse contida.
Não há uma explicação consensual para esse movimento entre os especialistas ouvidos. Mas todos estão de acordo que as compras de carteira de bancos médios e pequenos por grandes instituições, atraídas pelo benefício da redução do recolhimento do compulsório, contribuiria para elevar o nível de liquidez no sistema. Por não terem acesso ao sistema Selic – onde é preciso ter uma conta específica para participar dos leilões de dinheiro, promovidos diariamente pelo Banco Central -, esses bancos menores estariam zerando seus caixas por meio do CDI over, contribuindo para derrubar a taxa. Ao mesmo tempo, a taxa utilizada pelo Banco Central para enxugar o excesso de liquidez do sistema mantém seu “spread” histórico em relação ao CDI, que é próximo a 11 pontos base. Ontem, por exemplo, o BC retirou cerca de R$ 80 bilhões do mercado aberto em uma operação de um dia pagando 7,11%.
Uma estratégia mais comedida na concessão de crédito por parte dos bancos também contribuiria para a queda da taxa. Por estarem bastante líquidos, mas mais criteriosos para emprestar, os bancos estariam, deliberadamente, reduzindo a taxa de captação por meio de CDBs junto aos clientes. Como efeito secundário, a taxa do CDI, exigida pela instituição, também seria reduzida.
A consequência desse desequilíbrio entre as taxas é que o investidor final perde rentabilidade. E é por isso que o tema mobiliza a atenção dos gestores de fundos de investimento, além de entidades como Anbima, Febraban e BM&F.
Profissionais observam que uma das consequências desse descolamento fica evidente em dias que antecedem a reunião do Copom. Ao assumir posições no mercado futuro de juros, além de correr o risco da decisão de política monetária em si, o agente também passa a depender da oscilação do CDI – uma vez que esses contratos projetam o rumo da taxa interbancária, e não da Selic. “O que acontece é que, se o CDI está fora do padrão, como neste momento, o agente corre o risco de ganhar a aposta da Selic, mas perder por causa de uma mudança da taxa do CDI”, explica um especialista.
Na prática, boa parte do mercado está operando já levando em conta uma taxa diferente do CDI, na tentativa de evitar surpresas. Segundo profissionais consultados, há muitos negócios sendo fechados nestes dias tomando-se como base uma taxa de 7,05%, ponto médio entre a Selic e a taxa do CDI.
AUTOR: Lucinda Pinto .
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