Os juros futuros deixaram ontem de seguir o comportamento dos títulos do Tesouro americano e avançaram na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros) a reboque do dólar, que subiu mais 1,3%, para R$ 2,23. Embora o movimento esteja longe de configurar uma tendência consistente de aumento dos prêmios dos juros daqui para frente, ele mostra quão sensível às taxas dos contratos futuros de Depósito Interfinanceiro (DI) estão ao rumo da moeda americana.
O avanço do dólar se transmite aos juros futuros, basicamente, por meio de ajuste de portfólios de investidores provocados por aumento da percepção de risco e temores com a inflação. Quem tem aplicações em reais – por meio de títulos públicos ou no próprio mercado de juros futuros – sofre quando o dólar avança. Para amenizar eventuais perdas, os investidores compram DIs, o que acaba impulsionando as taxas.
O estrategista do BNP Paribas Diego Donadio lembra que os juros futuros caíram muito desde que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) decidiu, na quarta-feira passada, não reduzir o volume de compra mensal de US$ 85 bilhões em bônus. O contrato com vencimento em janeiro de 2017, que era negociado por volta de 11,70% em meados de setembro, caiu para 11,09% no pregão de terça-feira. Ontem, subiu para 11,24%. Já o derivativo para janeiro de 2015 fechou a 10,04% (ante 9,99% no pregão anterior). “A alta do dólar gera demanda por proteção, o que significa ficar comprado em DIs”, afirma Donadio.
O Tesouro Nacional divulgou ontem que a participação do investidor estrangeiro na dívida pública mobiliária federal atingiu 16,23% em agosto, nível recorde. No mês passado, segundo dados do Banco Central, houve entrada de US$ 5,074 bilhões para aplicação em títulos de renda fixa. Este mês, até o último dia 20, os aportes líquidos já somavam US$ 5,430 bilhões. Esses investidores compram papéis brasileiros atrás das taxas elevadas do Brasil e, ao verem o ganho em dólar minguar por conta da depreciação do real, podem tentar se proteger no mercado de juros futuros.
Além disso, depois da decisão do Federal Reserve de não iniciar a redução dos estímulos monetários, os investidores estrangeiros aumentaram posições prefixadas (que ganham quando os juros futuros recuam). Quando as taxas começam a subir, parte desses investidores pode decidir comprar contratos DI para realizar lucros.
Além da movimentação dos investidores, serve de combustível para o aumento dos juros futuro o espectro do repasse cambial, que se afigura sempre maior quando a moeda americana se fortalece. Embora o real tenha se apreciado recentemente, há sinais de que os índices de preços têm sido afetados pela desvalorização cambial vista nos últimos meses.
Para Donadio, do BNP, há potencial para que esse processo continue. “O repasse de alta do dólar ocorre quando o câmbio se estabiliza, não exatamente quando o dólar sobe”, afirma o estrategista, observado que o patamar de R$ 2,20 parece ser um novo nível de equilíbrio.
Fonte :Valor Econômico
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