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Mercado mantém aposta em Selic de 1 dígito
Faltando poucos dias para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), o mercado foi exposto a uma série de eventos que colocou em xeque os cenários traçados para o rumo da política monetária. Esta semana, a divulgação do Relatório de Inflação relativo ao terceiro trimestre e declarações dos dirigentes do BC geraram dúvidas sobre qual deve ser o rumo do ciclo de aperto monetário. Mas, entre idas e vindas, a ideia de que o juro seguirá abaixo dos dois dígitos este ano parece ser a mais provável. Dos 40 economistas ouvidos pelo Valor, 27 veem a Selic abaixo de 10% no fim deste ano, enquanto 13 esperam uma taxa justamente de 10%. Para 2014, há uma dispersão maior nas projeções. São 15 os economistas que veem o juro acima de 10%, com estimativas alcançando 11,5%.
Consolidar esses cenários não foi uma tarefa fácil. Além da mudança importante no quadro externo, o mercado viu sinais contraditórios na recente comunicação do BC. Essas dúvidas geraram muita volatilidade nos juros futuros e também fizeram com que parte dos economistas reavaliasse as projeções, antes de responder à pesquisa do Valor.
O Relatório de Inflação trouxe um quadro mais negativo para o IPCA. Para 2013, a projeção subiu para 5,7% e, para o terceiro trimestre de 2015, o indicador ficou em 5,5%. E, conforme o BC, há 29% de chance de a inflação superar o teto da meta (6,5%) no ano que vem.
Para Fernando Genta, economista-chefe da MCM Consultores Associados, foi relevante o fato de o BC ter elevado suas estimativas para o IPCA e incluído uma projeção para 2015 um ponto percentual acima do centro da meta de inflação. E também chama a atenção para a entrevista concedida pelo diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo. Ele afirmou que, diante desse diagnóstico sobre a inflação, a política monetária tem um longo caminho a percorrer. “Olhando os números e a entrevista de Carlos Hamilton, aumenta a possibilidade de um aumento maior da Selic. Mas ainda acredito que o cenário mais provável seja de interrupção do ciclo este ano”, diz.
O Barclays está alinhado à maioria das instituições e projeta Selic a 9,50% após a reunião do Copom na próxima semana, avançando a 9,75% em dezembro de 2013 e aí permanecendo até dezembro de 2014. Guilherme Loureiro, economista para o Brasil, afirma que 9,75% é a taxa mínima condizente com o discurso do comando do BC centrado na determinação de colocar “a inflação em tendência declinante”. “Com o real desvalorizado, vemos um IPCA mais pressionado em 2013 (6,1%). Mas com Selic a 9,75% a expectativa é que a inflação ceda no ano que vem para 5,8%”, diz. De forma geral, o cenário do Barclays de que a combinação de um crescimento mais fraco e deterioração fiscal levará ao “downgrade” do Brasil em 2014 continua intacto. “Mas a desvalorização mais rápida e acentuada do real em comparação ao que esperávamos terá implicações importantes sobre a dinâmica do déficit em conta corrente”, diz Loureiro, que projeta um déficit de 2,4% do PIB em 2014 contra 3,5% em 2013.
Solange Srour, economista da ARX Investimentos, espera que a Selic suba até 9,75% este ano e que o ciclo de aperto monetário só seja retomado em 2014, após o segundo turno das eleições. Mas também considera que o Relatório de Inflação aumentou a probabilidade de o ciclo de aperto monetário não ser interrompido em novembro. “O RI mostrou um processo de desinflação muito lento para 2014 e 2015. Se o BC estiver mirando em 2015 uma inflação menor do que 5,5% deveria estender a alta de juros além de novembro de 2013 porque o cenário de mercado nos mostra que encerrar em 9,75% não traz a inflação para baixo desse patamar”, afirma.
Solange avalia que a estratégia atual do BC é manter um discurso duro: queremos uma inflação mais perto de 4,5% o possível (o mercado é carente de uma referência para a inflação) e ao mesmo tempo deixar os próximos passos em aberto. “O BC vai ter que pesar na próxima decisão a fraqueza da atividade e a inflação que pode surpreender, porque ninguém sabe ao certo qual a intensidade do repasse e qual a sua defasagem. Está, dessa forma, tentando manter um discurso que ancore as expectativas de inflação e que ao mesmo tempo não mine com a baixa confiança dos consumidores e industriais”, comenta.
Uma importante variável para a condução da política monetária é o quadro externo. Em setembro, após a última reunião do Copom, o Federal Reserve esfriou as apostas sobre o início da retirada dos estímulos monetários – o que deu trégua na disparada do dólar. Além disso, o impasse em torno da questão fiscal americana pode atrasar a recuperação econômica. “A questão fiscal deve deixar o Fed ainda mais receoso de tomar qualquer medida no curto prazo, o que reduz a influência do cenário externo sobre a política monetária aqui”, diz Genta, da MCM.
Carlos Kawall, economista-chefe do Banco J. Safra, que vê Selic a 10% ao fim deste ano e a 11% no próximo, considera que, caso prevaleça a percepção de aperto maior das condições monetárias nos Estados Unidos, que se traduza em alta pronunciada dos juros de longo prazo, jogando o dólar para cima, pode haver pressão por maior alta da Selic.
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, não despreza o “efeito Dilma” no câmbio, especialmente após as eleições. O economista entende que a ação do Fed já está quase toda embutida nos preços dos ativos. Não descarta a possibilidade de quando for anunciado o início da redução do programa do Fed (que pode ser neste mês) ocorrer um novo repique no dólar em relação ao real, mas nada exagerado. “Os dois motivos adicionais para depreciar o câmbio são o ‘risco Dilma’, ou seja, a percepção de mais quatro anos de governo inerte, que ficará claro apenas em 2015, caso a atual presidente seja reeleita. E também a proximidade do início do aumento da taxa de juro americana. Ou seja, o câmbio deve continuar pressionado durante um bom tempo.”
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