Notícia
Renda fixa com ‘cara’ de variável graças à Selic menor
Quem vê nome não vê rentabilidade. Essa bem que poderia ser a máxima para descrever os fundos de renda fixa no primeiro semestre. Historicamente sinônimo da modorrenta rotina de resultados mensais quase idênticos e muito próximos à variação do CDI, esses fundos exibiram no período ganhos dignos da renda variável.
Levantamento de Marcelo d’Agosto, do blog “O Consultor Financeiro”, mostra que mais de 20 fundos da categoria obtiveram rentabilidade de dois dígitos no semestre, batendo por muito o CDI no período (4,59%). Destaque para as carteiras renda fixa índices, recheadas de títulos públicos que pagam taxa prefixada mais a inflação, as NTN-Bs. Esses fundos alcançaram retorno médio de 10,43%.
O milagre da multiplicação da renda fixa foi resultado dos cortes seguidos – e em magnitude superior à esperada pelo mercado – da taxa Selic. No primeiro boletim Focus de 2012, o mercado projetava Selic de 9,50% no fim deste ano. A taxa, como se sabe, já está abaixo disso. Quando os juros caem mais que o previsto, papéis públicos de prazos mais longos prefixados e, sobretudo, as NTN-Bs, se valorizam. E foi justamente esse movimento que fez a alegria da renda fixa.
O campeão da categoria foi o fundo JPM Brasil Ima B5+ FC FI RF, da JP Morgan Asset Management, com rentabilidade de 15,06% no primeiro semestre. O fundo tem como referência o índice IMA-B 5+ – reflexo de uma cesta de NTN-Bs com mais de cinco anos e que fechou o período com alta de 14,95%. O ganho adicional da carteira do JP em relação ao referencial veio da aposta nas NTN-Bs mais longas, motivada pela crença na forte queda do juro real, afirma Antonio Gonzales, gestor da equipe de renda fixa do Brasil da asset. “Percebemos que, com o BC cortando os juros, os ganhos ‘de verdade’ estavam nos papéis mais longos”, diz. Entre os escolhidos, ele cita a NTN-B 2050, cuja taxa recuou de 5,60% no início do ano para algo em torno de 4,7%, o que levou a uma valorização dos títulos.
Como vê a economia global fraquejando e acredita em uma recuperação muito lenta da atividade local, apesar de todos os estímulos fiscais, o JP aposta que a Selic deve terminar o ano em 7,5%. Mais: o banco não acredita na alta da taxa em 2013 na magnitude projetada na curva de juros futuros. Nesse cenário, as NTN-Bs mais longas devem continuar a se valorizar.
Na segunda posição, aparece o fundo Icatu Vanguarda FIC FI IPC Gold RF. A carteira obteve rentabilidade de 14,62% no primeiro semestre graças também a aposta em papéis públicos mais longos. Hoje, o prazo médio do conjunto de títulos na carteira está em 12,5 anos, diz Bruno Horovitz, gestor da Icatu Vanguarda. Como o valor dos títulos longos oscila com mais intensidade, o fundo, ressalta o gestor, pode ter perdas até elevadas em certos momentos. “Esse é um fundo para o investidor que acredita na queda estrutural do juro real brasileiro no longo prazo e aceita volatilidade maior no curto prazo”, afirma Horovitz.
Os resultados dos fundos com papéis de prazos maiores variam segundo as expectativas para a Selic. E essas projeções podem sofrer reviravoltas agudas, como se viu no primeiro semestre após o governo anunciar mudança na poupança. Houve carteiras, por exemplo, que ganharam ou perderam cerca de 2% em uma única semana. “A volatilidade dos fundos foi parecida com a da renda variável”, diz Gonzales, da asset do JP.
Na terceira colocação, ficou o fundo HSBC FI RF LP Preços, com ganhos de 13,44%, superiores à variação de 12,11% do referencial da carteira, o IMA-B Total, no primeiro semestre. Segundo Mario Felisberto, diretor de investimentos da HSBC Global Asset, o fundo concentrou as apostas na queda das taxas dos contratos de juros futuros mais curtos, na crença de que a Selic seria reduzida com mais intensidade, dado o crescimento raquítico por aqui em meio a uma economia global claudicante. “E esse movimento de queda dos juros curtos deve continuar, já que o cenário não mudou”, afirma Felisberto. O HSBC trabalha com a taxa Selic de 7,5%, mas com “probabilidade alta” de reduções adicionais. (AP e LS)
Fonte: Valor Econômico
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